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ARTIGO – O INVESTIMENTO PRIVADO EM PORTOS NO BRASIL ESTÁ MAIS SEGURO OU MAIS EXPOSTO?

Investir em portos no Brasil nunca foi uma decisão trivial. E, diante das mudanças propostas pelo novo Marco Portuário, a pergunta que se impõe é outra: o ambiente ficou mais seguro ou mais exposto?

Se no artigo anterior discutimos o papel da regulação e a centralidade da ANTAQ nesse novo desenho institucional, agora o olhar se volta para quem, de fato, sustenta o setor: o investidor.

O Projeto de Lei 733/2025 parte de uma premissa sedutora. Ao ampliar a autonomia das autoridades portuárias locais e reduzir etapas decisórias, busca destravar investimentos e tornar o setor mais dinâmico. Em tese, menos burocracia significa mais oportunidades.

Mas o investidor não decide com base em promessas. Decide com base em previsibilidade. E é aqui que o debate ganha complexidade.

A descentralização pode, sim, acelerar decisões e aproximar a gestão das demandas reais de cada porto. No entanto, ao redistribuir competências, também introduz um elemento de variabilidade que precisa ser cuidadosamente observado. Quanto maior a autonomia local, maior o risco de interpretações distintas, práticas regulatórias desiguais e soluções que não conversam entre si.

Ou seja: o problema não é o risco, é a imprevisibilidade.

Capital privado, especialmente em setores de infraestrutura, está habituado a lidar com cenários complexos. O que afasta o investimento não é a existência de risco, mas a dificuldade de mensurá-lo. E isso passa, necessariamente, pela estabilidade das regras do jogo.

Se diferentes portos passam a operar sob lógicas distintas, ainda que dentro de um mesmo marco legal, o resultado tende a ser um aumento da assimetria regulatória. E, com ela, o crescimento do custo de capital, a revisão de premissas de investimento e, em alguns casos, a postergação de decisões.

Há ainda uma questão sensível do ponto de vista contratual.

Ambientes regulatórios menos uniformes tendem a gerar mais disputas. Divergências de interpretação, revisões de equilíbrio econômico-financeiro e questionamentos sobre atos administrativos passam a ocorrer com maior frequência. E isso não apenas impacta projetos em curso, como afeta a percepção de segurança jurídica de todo o setor.

Não se trata, portanto, de afirmar que o novo Marco Portuário afasta investimentos. A proposta, em muitos aspectos, aponta para avanços importantes. Mas há uma diferença relevante entre destravar e sustentar.

Investimento não é evento. É fluxo. E fluxo depende de confiança.

Por isso, mais do que ampliar a autonomia na ponta, o desafio está em garantir coerência no sistema, o que exige uma regulação forte, técnica e previsível, capaz de harmonizar interesses locais sem comprometer a lógica nacional.

Sem esse equilíbrio, o risco é substituir a lentidão decisória por um ambiente de maior incerteza e, com isso, elevar exatamente o custo que se pretende reduzir.

O novo Marco Portuário pode, sim, inaugurar um ciclo mais dinâmico de investimentos. Mas isso dependerá menos do texto da lei e mais da forma como suas regras serão interpretadas e aplicadas.Informação Portuária

Nos próximos encontros, avançaremos na análise da segurança jurídica no setor, especialmente sob a ótica contratual e do contencioso que tende a emergir desse novo cenário. Até lá!


Texto publicado por Paulo Franco em Canal Franco, no Jornal Portuário:
https://jornalportuario.com.br/coluna/101/o-investimento-privado-em-portos-no-brasil-esta-mais-seguro-ou-mais-exposto